Na Primeira Guerra Mundial este crescimento foi bastante desregulado tenho dado origem a muitas empresas que visavam o lucro rápido e fácil e que não resistiram ao decréscimo das exportações no pós-guerra deixando atrás de si um rasto de má fama devido à baixa qualidade e mesmo fraudes que algumas destas empresas praticavam. Os próprios governos deste período viram neste crescimento da industria uma fonte de receita e sobre-taxaram esta indústria reduzindo a sua competitividade.
Com o Estado Novo a industria foi reorganizada e a qualidade dos produtos foi sujeita a um controlo apertado não sendo permitida a exportação de produtos que não apresentassem níveis mínimos de qualidade. Isso melhorou bastante a imagem de qualidade das conservas portuguesas no estrangeiro. O facto de os produtos que não cumpriam os requisitos mínimos de qualidade ficarem em Portugal combinado com facto das conservas serem promovidas pelo regime como uma fonte de proteínas e gordura barata e facilmente acessível à populações do interior levou a que as conservas fossem vistas em Portugal como um produto das classes baixas e de menor qualidade.
Apesar de tudo as conservas de peixe desempenharam um papel bastante importante na alimentação das populações menos favorecidas do interior de Portugal. Além do bacalhau seria a maneira mais fácil de fazer chegar peixe de mar ao interior, eram relativamente baratas, não precisavam de cozedura adicional e vinham já com a gordura que podia ser usada para temperar o próprio prato ou com outros fins. Mas não se livraram do estigma de serem comida de pobre e com o 25 Abril e à medida que o poder de compra e as acessibilidades melhoravam foram sendo postas cada vez mais de lado.
Nos últimos anos têm-se assistido cada vez mais a um ressurgimento das conservas e do seu posicionamento como um produto nobre e de qualidade. Ainda não chegamos ao ponto de termos conservas envelhecidas e rotuladas com o ano de captura como é feito por alguns produtores espanhóis mas muito mudou na indústria e nos consumidores de conservas em Portugal nos últimos anos. Apesar de isso continuar a não ser muito visível para os portugueses, as conservas continuam a desempenhar um papel muito importante na economia portuguesa sendo um dos produtos agro-alimentares mais exportado por Portugal.
A família Nero, de origem italiana, instalou-se em Sesimbra em 1680 com o objectivo de produzir peixe salgado e peixe seco. Em 1912 a actividade da família estava concentrada exclusivamente na conservação do peixe pelo sal e Amadeu Henrique Nero juntamente com outros sócios abriu uma fábrica de conservas dando origem à Paschoal, Nero & Cª. Passados alguns anos os sócios foram saindo e Amadeu Henrique Nero tornou-se o único proprietário da empresa que viria a chamar Nero & Cª. Em 1926 Amadeu Henrique Nero acaba com o negócio da conservação do peixe pelo sal e concentra-se exclusivamente nas conservas em lata. As conservas Nero atravessam assim quase todo o século XX tendo em 1944 mudado a sua sede e fábrica para Matosinhos.
Em 1989 já sob a liderança dos netos de Amadeu Henrique Nero, Filipe Nero e José Nero, a família Nero acaba por vender a fábrica de Matosinhos. Passado pouco tempo, José Nero abre uma pequena unidade de produção de anchovas no Montijo que iniciou a sua produção em 1992 mas que devido a uma conjuntura muito complicada encerrou passados poucos anos em 1996. Em 2010, José Nero retorna ao negócio da família com a Conservas Nero recuperando algumas das marcas históricas da Nero como a Catraio, a Georgette e a Naval subcontratando a sua produção a outras fábricas portuguesas. Esta nova etapa da Nero é caracterizada também pela inovação com o lançamento de conservas novas e únicas tendo sido a primeira dessas conservas a Filetes de Peixe Espada Preto em azeite. Foi no âmbito de uma acção de teste e prova de novos produtos que poderão vir a integrar o portfólio da marca que recebi há uns meses atrás quatro conservas de atum da Nero que vim a provar ao longo destes meses.
O Filete de Atum com Chícharos e a Salicórnia foi a primeira que provei, até pela curiosidade que tinha em perceber como estes ingredientes menos conhecidos funcionariam numa conserva. Estava à espera que os sabores dos chícharos e em especial a salicórnia sobressaíssem mais, mas isso acabou por não acontecer embora todos os sabores estivessem integrados num conjunto harmonioso. Têm lá tudo e pode funcionar como um prato completo não precisando de acompanhamento. Devendo ser único o uso de chicharros em conserva pode ter um bom mercado entre os saudosistas desta leguminosa.
A conserva em relação ao qual estaria mais desconfiado seria o Filete de Atum com Tomate Seco. Mas o que é certo é que o sabor forte do tomate seco integrava-se muito bem no filete ganhando este um toque agridoce e um ligeiro fumado. Uma ligação muito bem conseguida. Provavelmente a melhor ligação apesar de não parecer a mais provável à partida.
Tinha expectativa acerca dos Filetes de Atum com Algas. De início desapontaram-me um pouco pouco em termos de sabor as algas praticamente não se notam mas depois percebi que a sua humidade passa para o atum tornando o filete um pouco menos seco do que é habitual neste tipo de atum. A algas acabam por beneficiar de um modo muito interessante o conjunto embora para muitos possa passar despercebida a sua ação.
Nos Filetes de Atum em Azeite Biológico nota-se bem o cuidado na selecção do azeite, que se mostra claramente superior ao que é mais habitual nas conservas em azeite. Não me parece que isto se deva exclusivamente ao facto de este ser biológico mas é inegável a sua qualidade.
As conservas fazem parte da minha vida. Tenho a despensa cheia, sardinhas, petingas, cavala, atum, ventresca... Todas em azeite, já há uns anos que o óleo deixou de entrar cá em casa, seja em lata ou em garrafa. Um dos meus pratos de conforto é Atum com Feijão Frade, bem entretanto já fiz o upgrade e passou a ser Ventresca com Feijão Frade...
Importo Conservas Nero e devo dizer que os meus clientes estao encantados com o produto.
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