Tenho que tirar o chapéu à estratégia da Nestlé, fez de cada casa uma cafetaria sem custos de mão-de-obra ou infraestrutura, eliminaram intermediários, controlam todo o ciclo da produção até ao consumo e ainda devem conseguir margens superiores àquelas que conseguiriam se vendessem este café através dos canais habituais. Mas confesso que o que mais me irrita é ir a um bom restaurante e depois de uma boa refeição me servirem um Nespresso... Francamente, nem um MacDonalds teria a coragem de servir batatas fritas de pacote com um hamburger. Mas toda a gente parece aceitar pagar 30€ ou mais por uma refeição para depois lhe servirem um café que vêm dentro de uma capsula...
Por esta altura já os numerosos seguidores do culto Nespresso estão a espumar de raiva... Mas não vale a pena... Lá porque o Nespresso não me seduz não quer dizer não seja um conceito válido... Só não será válido para mim... Tenham paciência comigo... Para perceberem o meu problema continuem a ler...
Comecemos pelo lote do café... O café que faço em casa é normalmente comprado avulso em grão numa casa como a Casa Pereira. O último que me chegou a casa foi-me trazido de Timor Leste por um amigo que lá está a trabalhar. Normalmente compro um lote de arábica e outro de um robusta de qualidade que misturo para fazer o lote final. Atualmente a proporção que uso é 3 partes de arábica para 1 de robusta. O uso de robusta é uma das razões porquê o café português (ou mais corretamente o lote português) é diferente da maioria do café consumido no resto do mundo. O outro país que tradicionalmente também usa lotes com robusta para o expresso é a Itália. Não deve ser por acaso que a Itália é o outro país do mundo onde é possível beber um expresso decente...
O café vendido comercialmente no mundo divide-se em 2 tipos: os arábicas que são muito aromáticos e mais ácidos; e os robustas que são pobres aromaticamente mas têm mais corpo e cafeina e produzem mais creme quando usados para fazer expresso. Os robustas são considerados cafés de baixa qualidade e para muitos sua mistura num lote com arábica é um crime que só serve para baixar o preço do lote e estragar o café. É certo que um café só com robusta é uma experiencia muito pouco agradável e em café de cafeteira será até mais sensato usarmos um lote só com arábica. Mas quando usado para fazer expresso e loteado sensatamente com arábica a magia acontece... Temos um café com mais corpo, mais cafeina, a acidez por vezes excessiva da arábica é equilibrada pelo corpo do robusta e os aromas da arábica são amplificados pela maior cremosidade emprestada pelo robusta. E no fim disto tudo o lote ainda fica um pouco mais barato do que usando só arábica.
Toda a experiencia do café começa por irmos a uma destas casas que vende o café avulso em grão. São muitas vezes casas antigas e com história e entrar já é uma experiencia. Na loja começamos a sentir o cheiro do café, depois de sairmos e até chegarmos casa vamos ser constantemente recordados que comprámos café cada vez que o nosso nariz se cruzar com os aromas que vão escapando do saco de papel pardo onde o café foi embalado. Eu já tentei fazer isto com capsulas Nespresso mas infelizmente o cheiro frio do alumínio não consegue despertar em mim as mesmas sensações que o cheiro do café em grão... Vá-se lá perceber porquê... Em casa guardo-o no frigorífico em recipientes de vácuo e o café só é moído minutos antes do expresso ser tirado.
A moagem do café é um ponto importante para a obtenção de um bom café. A "grossura" da moagem é o que nos permite controlar a intensidade do café. Assim com uma moagem mais fina será necessária uma pressão maior para a água atravessar o café, extraindo mais sabor e cafeína e demorando mais tempo para tirar o café. Mas se for demasiado fina, a pressão e a temperatura da água poderá subir demasiado e o café sairá queimado. Por outro lado uma moagem grossa será mais permeável à passagem da água, a pressão será menor e o café será menos intenso e mais fraco. Não há um grau de moagem ideal. Depende do café, da máquina, se estamos a tirar 1 ou 2 expressos de cada vez e até da água. A ideia será ir ajustando a grossura ao longo do tempo. Se o café estiver a sair fraco e muito rapidamente, moer mais fino da próxima vez . Se estiver a sair queimado ou se a máquina não conseguir atingir a pressão suficiente para fazer passar a água pelo café, moer mais grosso. Seguir este processo até atingir o ponto de equilíbrio em o café têm o sabor mais intenso possível (ou com a intensidade ao vosso gosto) sem que fique queimado.
Para conseguir regular a moagem adequadamente será necessário ter um moinho com regulação da grossura da moagem. Existem basicamente dois tipos de moinhos de café: os moinhos com uma câmara para o café em grão e outra para onde o café moído é expelido; e os moinhos com uma única câmara com uma lamina rotativa (tipo uma liquidificadora mais pequena) onde é colocado o café em grão. Normalmente os primeiros têm regulação de grossura e nos do segundo tipo a grossura da moagem depende do tempo de moagem sendo o controlo da grossura mais difícil. Devido à maior dificuldade em regular a grossura da moagem não recomendo os moinhos do segundo tipo.
Tenho uma máquina Krups que têm sido a marca em que tenho conseguido encontrar uma melhor relação qualidade preço. Por cerca de 200€ consegue-se ter uma máquina em casa que consegue tirar cafés com uma qualidade quase comparável a máquinas profissionais. Mas regulando a moagem poderá ser possível conseguir um café minimamente decente mesmo com máquinas de menor qualidade.
Escaldo as chávenas e normalmente faço 2 cafés de cada vez pois assim é normalmente mais fácil obter pressões mais elevadas e consequentemente café mais intenso devido à quantidade de café no filtro ser maior e por isso menos permeável à água. Não ponho açúcar no café. Desde há muito tempo que me habituei a beber o café sem açúcar e garanto-vos que é a melhor maneira de beber bom café. O açúcar acaba por esconder alguns dos aromas do café não sendo possível aprecia-lo na sua plenitude. Mas o açúcar além de esconder os bons aromas também esconde os maus e se o café estiver queimado, bebe-lo sem açúcar será uma experiencia ainda mais desagradável.
Acho que já perceberam o meu problema... É psicose grave... Mas ao menos vou bebendo bom café...
Em Timor Leste há um tipo de café mais raro e caro que o café normal. Este café chama-se kafé-laku e basicamente são grãos de café que são comidos por um pequeno mamífero chamado civeta (Asian Palm Civet). Depois de digerida polpa da baga de café, o grão permanece inteiro e é expulso nas fezes do animal. As fezes são recolhidas e os grãos são lavados e torrados produzindo um dos cafés mais exclusivos e caros do mundo. A passagem pelo sistema digestivo do animal intensifica a componente aromática e reduz o amargor do café. Pode ser que um dia destes me tragam de Timor um pouco deste café...
Eu podia beber Nespresso... Podia, mas não era a mesma coisa...
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