Na Foz do Rio Torto

De vez em quando o Paulo (também conhecido como CicloMaluco), falava-me do Abílio que tinha deixado Lisboa para ir para o Douro produzir vinho. O Abílio Tavares da Silva tinha sido um dos sócios fundadores da Altitude Software, uma empresa de desenvolvimento de software para call centers, onde eu e o Paulo trabalhamos até à primeira metade da década passada. Nunca cheguei a trabalhar com o Abílio pois antes de entrar já ele tinha saído da empresa. Vendeu a sua participação antes da bolha das dotnet rebentar pouco depois do ano 2000, quiçá por sorte, quiçá por perceber que a estratégia que estava a ser seguida não era sustentável. Fundou também a Plurimarketing que atuava na área das sondagens e marketing telefónico que veio a ser adquirida pela Teleformance, a atual líder mundial na área de centros de contacto, e que recentemente tem merecido alguma atenção mediática devido ao crescimento da sua atividade em Portugal em altura de crise.

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Após a venda da Plurimarketing à Teleperformance o Abílio ainda se manteve por alguns anos na liderança executiva da empresa mas o bichinho do Douro já lá estava. Sendo apreciador de vinho, o apelo pelo Douro surgiu durante uma estadia numa unidade de turismo rural duriense. Depois desses dias o Abílio percebeu que o Douro teria de ser a sua vida e iniciou a procura por aquela que seria a sua casa no Douro. Entretanto tirou o curso de enologia da UTAD e esta procura terminou junto à foz do Rio Torto em 14 hectares de socalcos que transpiravam Douro por todos os poros. Foram mantidos 3 hectares de vinhas velhas e o resto foi replantado com vinha nova das castas tradicionais do Douro. Para os brancos foi adquirida um parcela de vinhas velhas em Porrais, Murça.


O Paulo até me tinha mandado um mail sobre o Abílio e seus vinhos uns dias antes quando fui convidado para participar na apresentação destes em Lisboa no Assinatura. Mais uma vez ficou provado que o mundo é redondo e que por mais voltas que dê há pedaços dispares da nossa vida que acabam por se encontrar da maneira mais improvável. Iria ficar a conhecer os vinhos de uma pessoa que já tinha ouvido falar muito sem no entanto conhecer e ainda por cima num restaurante onde tinha vontade de voltar para experimentar a comida do João Sá.


Apesar do seu curso enologia, o Abílio foi buscar alguém mais experiente e têm como responsável pela enologia a Sandra Tavares da Silva que embora jovem é já é uma das referencias da enologia do Douro. Também esta escolha foi fruto de um acaso que se revelou um encontro feliz pois parece haver uma grande sintonia de objetivos e uma grande empatia entre os dois. E não, a Sandra não é da família do Abílio apesar da coincidência de nomes de família. Ambos exprimem a ambição de produzir vinhos de grande qualidade que sejam reflexo das características únicas daquelas vinhas. Tudo isto sem perder de vista a necessidade de rentabilizar e tornar sustentável este projeto.

São três as referencias disponíveis da marca: Foz Torto Vinhas Velhas Branco, Foz Torto Colheita Tinto e Foz Torto Vinhas Velhas Tinto. O branco e o colheita tinto estão disponíveis em dois anos de colheita diferentes. O branco de 2011 na realidade dá pelo nome de Foz Torto Reserva Branco 2011 pois nesse primeiro ano não foi possível chamar-lhe Vinhas Velhas apesar de ser essa a intenção. Mostrava um dourado claro com aromas a flores brancas e alguns espargos e na boca revelava-se encorpado com uma boa acidez e um ligeiro vegetal. Já está muito bom mas mais uns anos de garrafa deverão torna-lo num grande vinho branco do Douro. Provamos também o Foz Torto Vinhas Velhas Branco 2012 que se apresenta um pouco mais claro num amarelo esverdeado com um perfil aromático semelhante mas um pouco mais fechado. Na boca mostra um pouco mais de acidez e menos corpo mas tal como o 2011 parece ter um grande potencial de evolução com o estágio em garrafa.


O Foz Torto Colheita Tinto 2010 resultou de um lote único que inclui as uvas da vinha velha e uvas da vinha nova. Apresenta uma cor granada escura mas ligeiramente translucida trazendo a nariz aromas de frutos vermelhos com alguma mineralidade a sobressair. Com boa acidez revela-se muito fresco na boca e depois de dar um volta na boca começa a notar-se algum chocolate, alcaçuz e notas licoradas a dar-lhe estrutura. Ao fim de algum tempo no copo começaram a revelar-se aromas a nozes e passas sem que se tornasse pesado. Muito elegante, revelou uma ótima surpresa com uma grande relação qualidade preço. O Foz Torto Colheita Tinto 2011 já não incluiu no seu lote as uvas da vinha velha. Também com uma cor granada escura ligeiramente translucida. Mostrava mais juventude do que o 2010 estando um pouco fechado ao inicio mas revelando também aromas minerais. Na boca a fruta sobressaia e acabava por se mostrar mais exuberante com taninos um pouco mais rebeldes. O licorado também lá estava e acabava por ser um vinho menos elegante mas mais divertido que o 2010. Precisa de um pouco mais de tempo de revelar completamente o seu carácter. Faltava ainda o Foz Torto Vinhas Velhas 2011 que se mostrava granada escuro e fechado de aromas deixando escapar um toque balsâmico num conjunto muito mineral. Taninos muito elegantes que secam a boca deixando um licorado e picante na língua. Elegância é a palavra que melhor o define. É um grande vinho que devíamos deixar ficar a dormir na garrafa por alguns anos pois ele certamente nos recompensará pela nossa paciência.


Depois de provados a solo estes vinhos foram harmonizados com um menú do João Sá que há cerca de 6 meses substituiu o Henrique Mouro na cozinha do Assinatura. Começamos com a Ostra e Dashi Português com Iogurte Fumado e Tapioca que não foi um prato completamente consensual. Embora não fosse extraordinário, achei que preservava os sabores da ostra, dando-lhe um toque diferente. Gostei e acabei por repetir pois o André que estava ao meu lado decidiu não arriscar depois uma má experiência com ostras há menos de uma semana atrás.


Seguimos com o Fígado de Frango, Cogumelos Grelhados e espuma de Alho que na minha opinião tinha aqui um erro de casting num dos cogumelos que acompanhava o fígado. Os cogumelos que acompanhavam o prato eram de várias variedades sendo um deles um tipo de cogumelo (seria um shitake?) com um sabor muito forte e que deixava a língua meio encortiçada dominando todos os outros ingredientes e o próprio vinho. Evitando este cogumelo, o fígado estava com uma textura perfeita, mal passado e salvaguardando as diferenças não ficava atrás de muitos foie grás que por aí andam. Penso que melhor acompanhado poderia tornar-se um prato de referencia do chef João Sá.


Seguimos para o Arroz de Bivalves e Garoupa em que o arroz de bivalves estava bom de sabor mas pareceu-me que deveria estar um pouco mais cozido para que se pudesse apreciar adequadamente a sua cremosidade. Por outro lado a garoupa estava perfeita em termos de ponto de cozedura.


Terminámos a fase salgada da refeição com o Lombo de Veado Wellington com molho de Cassis. Boa qualidade da carne, ponto de cozedura correto, tudo bem feito mas eu confesso que tenho um certo preconceito com este prato... Faz-me lembrar o Gordon Ramsay e é um prato em que não vejo a criatividade que se espera num restaurante como o Assinatura. Eu sei, o problema sou eu que não vou à bola com o Gordon Ramsay, não é o prato.


Terminamos com a Romã, Chocolate e Castanhas que como o chef a descreveu era Romã, Chocolate e Castanhas. Ok, seria um pouco mais do que isso e era fresca e agradável mas confesso que me pareceu uma proposta pouco ambiciosa.


Numa curta conversa com o chef percebi que teve que reconstruir a equipa de raiz e isso não lhe facilitou nada a vida e só agora as coisas pareciam a começar a entrar nos eixos. O serviço terá sido um pouco lento mas confesso que não estava a olhar para o relógio e a conversa com o Abílio e a Sandra foi tão interessante que essa lentidão não me incomodou. No geral gostei da refeição embora tivesse ficado um pouco abaixo das expectativas que tinha. Se por um lado as proteínas eram de qualidade e estavam muito bem tratadas havia ali alguns pormenores nos acompanhamentos que me pareceram não estar à altura do que se esperaria e que merecem algumas correções. Embora este tipo de eventos não permitam arriscar muito pareceu-me também haver alguma falta de arrojo neste menu. Pelo pouco que conheço do João parece-me que ele pode ser capaz de propostas mais arrojadas e gostava de o ver a arriscar mais. Mas de momento, provavelmente, o mais importante será estabilizar a equipa e corrigir os pormenores menos conseguidos.

O projeto Foz Torto apesar de já ter cerca de 10 anos está ainda no seu inicio tentando afirmar-se como marca de referencia e continuará a consolidar-se com a criação de um centro de receção de turistas na adega. A adega situa-se no centro do Pinhão e resultou da recuperação de uma antiga adega degradada. Junto à vinha será recuperada uma velha ruína existente na propriedade para criar uma unidade de enoturismo com oito quartos que deverá estar concluída em 2015. Fico com a inveja do Abílio pois está a conseguir cumprir o sonho de muitos de nós que somos amantes de vinho mas não trabalhamos o vinho. Teve a oportunidade de largar tudo e criar um projeto vínico exemplar.

A Arte de Bem Comer e da Volúpia - www.wook.pt

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