Café Covela

Ainda em Abril foram apresentados no Café Lisboa algumas novidades da Quinta da Covela. A Quinta da Covela está localizada Minho e tem 18 hectares de vinha que neste momento estão em processo de transição para vinha biológica. Na realidade a vinha já produz exclusivamente segundo processos biológicos mas o processo de certificação requer três anos de práticas exclusivamente biológicas antes de os vinhos poderem ostentar a designação de biológicos.

Café Covela - reservarecomendada.blogspot.pt

A Covela há uns anos atrás despertava muitas paixões. Entretanto o projeto esteve parado e a vinha esteve abandonada durante 2 anos. Sentia-se o saudosismo cada vez que era colocada uma foto de uma das últimas garrafas nas redes sociais. Eu não conhecia os vinhos dessa outra vida da Covela mas dava para perceber pelas conversas que deveriam ser vinhos muito interessantes.


Foi com a vinha abandonada que o Tony Smith e Marcelo Lima pegaram na Covela e em boa hora a fizeram ressurgir. O Tony tem sido a cara mais visível da nova Covela e é um jornalista inglês que esteve radicado em Portugal e no Brasil durante muitos anos. Terá conhecido o empresário brasileiro Marcelo Lima que partilha com ele a paixão pelo vinho e que há uns anos andava a tentar adquirir uma vinha em Portugal. Juntos compraram a Covela e foram buscar a equipa enológica original comandada pelo enólogo Rui Cunha e conseguiram que quase não se desse por este interregno de 2 anos.


A Covela fica ainda na região dos Vinhos Verdes mas já perto da fronteira com o Douro e sem renegar a sua região acaba por ter um perfil já muito influenciado pelo Douro. O branco é a base do encepamento constituindo 80% da área de vinha. Duas apostas em termos de castas são o Avesso e o Arinto que são também os seus atuais monocastas brancos.


O Covela Edição Nacional Avesso 2013 que foi servido em magnum apresenta uma cor dourada clara e aromas minerais com algumas flores brancas. Um pouco fechado de aromas mas pareceu-me que isso poderia ser timidez de juventude. Boa acidez, muito fresco e mineral. Boa estrutura e mesmo depois de aquecer um pouco manteve a frescura. O Avesso é uma casta que apesar de ser tradicional da região é pouco conhecida e não há muitos monocastas desta casta. Eu por acaso até me tinha cruzado com um destes monocastas recentemente que me agradou bastante e tinha-me deixado com vontade de provar mais desta casta. Este Covela cumpriu bastante bem esta minha expectativa e deixou-me ainda com mais vontade de provar vinhos desta casta.


Seguimos com o Covela Edição Nacional Arinto 2013, pela primeira vez vinificado a solo, também servido em magnum apresentava uma cor dourada clara, também fechado de aromas e com algumas flores brancas. Na boca mostrava uma boa acidez, algum vegetal e muito mineral. Como o Avesso mostra uma boa estrutura e mantinha a frescura após aquecer um pouco.


O Covela Rosé 2013 é também um monocasta embora isso não seja explícito na denominação da referência. Foi feito exclusivamente com Touriga Nacional a partir de uma parcela trabalhada já a pensar num rosé. A Touriga Nacional será uma das melhores castas portuguesas para elaborar rosés. Aqui apresentava-se com uma cor salmão clara acobreada e com aromas a frutos vermelhos com alguns aromas vegetais. Na boca mostra boa acidez, com um lado mineral e pouco exuberante e deixando transparecer no final uma ligeira doçura bem integrada no conjunto.


Terminamos as novas colheitas com o Covela Escolha Branco 2013 que mostrava uma cor dourada esverdeada e revelando-se um pouco mais exuberante no nariz com aromas com algum tropical como a banana complementado por alguns espargos. Muito boa acidez, com um perfil mineral na boca e bastante longo e elegante na boca.


Comum as todos estes vinhos foi a sensação com que fiquei que ainda estavam um pouco novos e a precisar de mais uns meses garrafa apesar de já mostrarem um grande potencial. Entre esta prova e altura em que escrevo isto passaram-se quase dois meses. Penso que provados agora terão realizado parte desse potencial e já não se notará tanto essa juventude.


Os brancos e o rosé todos eles foram servidos em magnum que são uma aposta da casa devido a uma grande procura destas por parte da restauração. São curiosas as razões para isso, que não estarão tanto relacionadas com a diferente evolução dos vinhos em magnum mas com o facto de alguns restaurantes estarem a usar magnums para o serviço de vinho a copo e de as sugerirem para mesas maiores. Isto depois parece gerar um efeito de contagio e quando uma mesa é servida com uma magnum é habitual isso despoletar pedidos de magnums noutras mesas.


Já com a refeição ainda houve oportunidade para provar o Covela Escolha Tinto 2012. Apresentava-se granada com laivos violeta e no nariz revelava alguma terra molhada e notas balsâmicas, aromas que me atraem muito. Vegetal na boca e deixando algum amargor mas muito fresco. Achei este vinho diferente e muito divertido. Tenho de ver se consigo acompanhar a sua evolução pois apesar de já estar muito interessante parece ter muito potencial para continuar a evoluir.


Depois de se provar os vinhos brancos e o rosé na sala no edifício do Teatro São Carlos passámos à esplanada no Largo de São Carlos para a refeição. Desde a sua abertura que tinha curiosidade de experimentar o Café Lisboa onde o José Avillez faz a sua interpretação dos cafés lisboetas clássicos. Começamos com uma entrada já clássica do chef que já tinha provado há uns três anos no Peixe em Lisboa, as Vieiras Marinadas com Abacate. Esta entrada até não faz parte da carta do Café Lisboa mas sim do Cantinho do Avillez talvez até porque foge um pouco do registo mais clássico que o Café Lisboa pretende ter. Apresentado num empratamento diferente daquele que tinha quando o comi pela primeira vez continua a explorar de um modo muito competente a ligação entre as vieiras e o abacate mediada pela acidez da lima.


Como prato principal foi servido o Bife à Café Lisboa que é uma das bandeiras da casa e que pretende ser uma reprodução do Bife à Café tradicional de Lisboa ou mais propriamente do Bife à (Café) Marrare, que cafés há muitos, assim como os bifes. Alguns destes bifes além de serem à café até levam café, o que não será o caso deste. Mas é melhor não ir por aqui que isto do Bife à Café levar ou não café gera paixões inflamadas. Este é um prato em que o truque é não complicar, carne de qualidade, respeito pelos pontos de cozedura, não há que enganar.



Terminamos com uma muito competente Torta de Laranja com Gelado que apesar de estar bastante bem conseguida não conseguiu destronar da posição de melhor Torta de Laranja do Mundo a torta da minha mãe. A acompanhar esta torta chegou-nos do Douro um convidado especial, o Secret Spot Moscatel do Douro 40 Anos pela mão do Gonçalo Sousa Lopes que é responsável pela viticultura da Covela, sendo os vinhos da marca Secret Spot oriundos de propriedades da família deste. Apresenta uma cor café clara com o bordo esverdeado característico de moscatéis muito velhos. No nariz mostra algum café e passas, com uma ótima acidez na boca com um ligeiro vinagrinho a dar-lhe complexidade e um final longo, longo. Grande vinho.


Se por um lado o Café Lisboa confirma ser um porto seguro para comer alguns pratos clássicos de Lisboa e outros menos clássicos mas dentro do perfil dos cafés clássicos de Lisboa, por outro o ressurgimento da Covela pela mão de Tony Smith e Marcelo Lima promete confirmar o potencial da Quinta da Covela para fazer grandes vinhos a refletirem um terroir de exceção.

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